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A minha Amazônia me representa

A minha Amazônia me representa. A minha Amazônia me faz vibrar em cada nota que ecoa de dentro dela. A minha Amazônia me deu voz firme, mas a minha voz não é única; é plural e repleta de sons que precisam navegar sem direção. A minha Amazônia me ensinou maneiras de navegar e a superar as adversidades. Em cada curva de igarapé, rio, lago e paraná, ela me direciona para chegar além-mar. A minha Amazônia me pariu. Meu parto foi de parteira, com dor, com sangue de cabocla do mato, com mãos firmes para amparar um futuro desenhado por ventre e mãos femininas. Parteira, amazônida, de ventre de Maria. Eu não fiquei no meio do caminho; eu morei no meio do mato. Tomei banho de rio, com cheiro de sol, de água barrenta, de pele molhada pela água doce. O meu Amazonas me fez ir além de si. Me deu força para sair de casa, me faz trabalhar e desenhar meu caminhar. Ela me dissecou por dentro e remodelou a minha realidade em outras formas de olhar. Fez com que eu não me perdesse da minha família amazôni...
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À grade que prende a vida

Enquanto estive na cela, diariamente, pela manhã, deparei-me olhando pela janela com nove pássaros presos em gaiolas . Naquele sobrado à minha frente, observei também o algoz dos passarinhos, que andava de um lado para o outro, alimentando-os com sementes que não semeiam nem almas de defuntos. Quando ele não se aproximava de suas vítimas de asas cortadas, ou estava manipulando e circulando em torno dos prisioneiros, eu olhava de longe e sentia os pássaros dando voltas dentro de suas gaiolas, agoniados, aturdidos, como se estivessem ultrapassando as fronteiras da loucura e, sem sentido, giravam em torno de si, como se estivessem em transe ou em algum delírio acima do normal. Quebrada por dentro, me vi pássaro preso, de asas cortadas, e refém de homens que criam pássaros e suas gaiolas. Ao ver e sentir aquilo, pareceu-me tantos outros em privações de existência. Lá, eles não podiam bater asas, não podiam voar, não podiam ter ninhos, sentir as asas abertas, caçar livremente, procriar ...

Quem escala cérebro, não precisa de montanhas

Por que escalar montanhas se eu tenho meu cérebro para escalar? Quero, sim, escalar . Quero subir no meu cérebro . Quero mergulhar nas minhas células. Nadar junto com as bactérias , meus vermes, fungos, vírus e saber do que eles são feitos. Sendo uma parte do que sou, eu sou eles. O que me habita é o que me compõe. Quero nadar em mim para descobrir novos oceanos. Quero conhecer a viscosidade de dentro , por dentro. Toda a minha água infinita e lubrificada de vida e infinitas conexões. Quais são os meus limites? O que meus órgãos, a minha parte interna e escura, dizem? Como eles estão com o tempo ? Quero poder dialogar comigo em pedaços minúsculos, invisíveis e acessíveis somente por mim. Quero ouvir os sons de dentro, se movendo, ajustando, cedendo, permitindo, transformando, sendo, atuando. E, em cada parte escura por dentro , chegar à sua cor natural com os olhos de fora. Que micro será esse que se expande sem parar ? Provar meu sangue, beber a minha bílis é saber q...

O vazio do olhar

  As mãos ficaram tesas . Os dedos paralisados.  A composição do cenário deu o tom que viria. O trovão soou bem distante. Faltavam sete minutos para iniciar o temporal. As cadeiras rangeram com força. Nao suportariam a ventania. Os olhos vidrados e cheios de vazio denunciaram a ausência. Corpo partido, teso,  e alma escondida estava adoecida desde o primeiro choro. Espelho quebrado e sem serventia. Temporal faz isso. Encontros são assim, nos dão a medida que precisamos para aprimorar ou se perder de vez sem nunca ter encontrado o caminho. Caminha até a porta e a rajada de vento surpreende aquele que nunca presenciou chuva forte fora de hora. Relâmpagos cortam o céu. O trovão ficou mais forte e falou alto aos ouvidos: “Tempestade à vista!” Ser forte é necessidade e nunca escolha. Escolha é para quem tem mais que um par de meias. Assim caminham os olhos vazios. Para que existem o brilho decidiu fica na escuridão!? Não está fora, mora dentro, é interna a agonia! A chuva desa...

Relógio

Às 5h da manhã, o relógio mais parecia a fúria de um rinoceronte entrando no quarto. Levantar cedo para exercitar o corpo e a mente representa uma sentença para quem habituou-se com a preguiça e o sedentarismo.  O sedentarismo é bicho cativante. Envolve o corpo numa teia de moleza que escorre pela alma. Por outro lado, ter disciplina é um eterno "guarda de plantão" pronto para a punição devida. A arte e a disciplina, embora pareçam opostas, são forças complementares. A arte com toda a sua liberdade, cáos, expressão e emoção, acomoda-se perfeitamente nos métodos, constância e reflexão da disciplina.  As duas forças juntas faz surgir um caminho onde a minha criatividade não se restringe ao impulso caótico, mas na construção consciente, equilibrada e conectada com a solidão. Cada músculo, cada gordura, cada gota de suor, infinitas horas e dias que se dobram com amor.  Anos de preparação num processo que exige toda dedicação de quem um dia viu seus dias serem abandonados e tr...

Você já criou hoje?

Um dos maiores desafios para quem compõe em uma tela branca é prencher os espaços. A mente fica divagando e se afasta rumo ao vazio para poder pescar algum detalhe que ficou de fora, cercando os pensamentos como se quiser germiná-lo. Tela vazia é uma espécie de prisão. Com uma sala vazia, sem pintura, de chão duro, batido e paredes frias. Um convite ao silêncio da critividade. É nesse exato momento que a criatividade faz um convite a todos os lados do pensamento, sejam eles oriundos de qualquer natureza ou direção. Como oleira cava fundo e molda formas antes desconhecidas. Há uma liberdade velada na criatividade. Não havendo parametro ou lei em sua natureza e autonomia, a fluidez assume o posto de proprietária em todo o processo.  Ela é exige com uma forma suave, jeitosa se faz soberana ante as dificuldades. Dona de uma postura inigualável se instala no avesso do criador.  No caminho que decide percorrer, cada espaço explorado, é um deleite sob o seu domínio. Sem margens para ...

2024- afinal, finais!

2024- afinal, finais! Ano findando, tudo indo, tudo caminhando.  O que foi plantado vai fluindo e o que foi colhido, investindo e desfrutando. Agora seguimos adubando e replantando, para novamente criar, planejar e renascer.  Em meio a todo esse processo nasceram aprendizados com reflexões, inúmeros agradecimentos e outro tanto de promessas cumpridas, esquecidas e ainda aquelas que foram deletadas e até as que foram transferidas para um próximo ano.  Resta-nos uma certeza repleta de firmeza, com atitudes precisas e a força de boas vibrações. O 2024 também foi cheio de novidades, desafios com velhas e novas amizades, grandes parcerias e excelentes oportunidades. Foi um ano também com perdas irreparáveis, ganhos significativos e novos caminhos até então não sonhado e trilhado. Caminhos que foram se cruzando, desbravados. Estradas foram retomadas grandes parcerias certas foram firmadas e aplicadas. Um ano de contratos e proteção. Foi um ano onde a Amazônia contou a história ...