Enquanto estive na cela, diariamente, pela manhã, deparei-me olhando pela janela com nove pássaros presos em gaiolas . Naquele sobrado à minha frente, observei também o algoz dos passarinhos, que andava de um lado para o outro, alimentando-os com sementes que não semeiam nem almas de defuntos. Quando ele não se aproximava de suas vítimas de asas cortadas, ou estava manipulando e circulando em torno dos prisioneiros, eu olhava de longe e sentia os pássaros dando voltas dentro de suas gaiolas, agoniados, aturdidos, como se estivessem ultrapassando as fronteiras da loucura e, sem sentido, giravam em torno de si, como se estivessem em transe ou em algum delírio acima do normal. Quebrada por dentro, me vi pássaro preso, de asas cortadas, e refém de homens que criam pássaros e suas gaiolas. Ao ver e sentir aquilo, pareceu-me tantos outros em privações de existência. Lá, eles não podiam bater asas, não podiam voar, não podiam ter ninhos, sentir as asas abertas, caçar livremente, procriar ...
Por que escalar montanhas se eu tenho meu cérebro para escalar? Quero, sim, escalar . Quero subir no meu cérebro . Quero mergulhar nas minhas células. Nadar junto com as bactérias , meus vermes, fungos, vírus e saber do que eles são feitos. Sendo uma parte do que sou, eu sou eles. O que me habita é o que me compõe. Quero nadar em mim para descobrir novos oceanos. Quero conhecer a viscosidade de dentro , por dentro. Toda a minha água infinita e lubrificada de vida e infinitas conexões. Quais são os meus limites? O que meus órgãos, a minha parte interna e escura, dizem? Como eles estão com o tempo ? Quero poder dialogar comigo em pedaços minúsculos, invisíveis e acessíveis somente por mim. Quero ouvir os sons de dentro, se movendo, ajustando, cedendo, permitindo, transformando, sendo, atuando. E, em cada parte escura por dentro , chegar à sua cor natural com os olhos de fora. Que micro será esse que se expande sem parar ? Provar meu sangue, beber a minha bílis é saber q...