Enquanto estive na cela, diariamente, pela manhã, deparei-me olhando pela janela com nove pássaros presos em gaiolas. Naquele sobrado à minha frente, observei também o algoz dos passarinhos, que andava de um lado para o outro, alimentando-os com sementes que não semeiam nem almas de defuntos.
Quando ele não se aproximava de suas vítimas de asas cortadas, ou estava manipulando e circulando em torno dos prisioneiros, eu olhava de longe e sentia os pássaros dando voltas dentro de suas gaiolas, agoniados, aturdidos, como se estivessem ultrapassando as fronteiras da loucura e, sem sentido, giravam em torno de si, como se estivessem em transe ou em algum delírio acima do normal.
Quebrada por dentro, me vi pássaro preso, de asas cortadas, e refém de homens que criam pássaros e suas gaiolas. Ao ver e sentir aquilo, pareceu-me tantos outros em privações de existência. Lá, eles não podiam bater asas, não podiam voar, não podiam ter ninhos, sentir as asas abertas, caçar livremente, procriar e morrer onde a vida lhes deixasse ser. Ali, somente existiam para serem alimentados por uma mão doente, que acreditava ser um Deus amigo e bondoso, domesticando a existência de tantos outros ao seu dispor.
Essa imagem atravessa o corpo e alcança a psique. Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés nos conduz justamente por esse território onde a alma, muitas vezes, é aprisionada antes mesmo do corpo. A autora nos diz que carregamos dentro de nós uma natureza instintiva, a Mulher Selvagem, que resiste às gaiolas visíveis e invisíveis impostas pela cultura, pelo medo e pela necessidade de pertencimento.
Ao olhar para os pássaros presos, é impossível não reconhecer essa metáfora daquilo que, dentro de nós, também foi contido. Na perspectiva da Psicologia Analítica, de Carl Jung, os arquétipos revelam padrões universais do inconsciente coletivo. A gaiola, nesse sentido, não é apenas física, ela é psíquica. São estruturas internas que nos impedem de voar, de acessar aquilo que sabemos, mas fomos ensinados a esquecer.
Pinkola Estés fala da “gaiola dourada” como esse espaço onde, em troca de segurança, sacrificamos a liberdade da alma. E, assim como os pássaros alimentados por mãos que controlam seus movimentos, muitas vezes nos nutrimos de certezas impostas, que não alimentam o espírito, apenas mantêm a sobrevivência. Somos, então, donos de pássaros internos: desejos, instintos, intuições... que tentamos domesticar, enclausurar, silenciar nos recônditos do pensamento.
Sob a ótica de Nietzsche, essa prisão também pode ser entendida como a negação da potência de vida. O filósofo nos provoca a pensar sobre a vontade de potência como força vital que busca expansão, criação e afirmação. Quando essa força é reprimida, ela não desaparece, ela adoece. Torna-se angústia, repetição, delírio, como os pássaros que giram em círculos dentro da gaiola.
Já em Foucault, encontramos a ideia de que os mecanismos de controle não estão apenas fora, mas são internalizados. O vigilante, o carcereiro passa a habitar o próprio sujeito. Assim, não são apenas grades que nos prendem, mas discursos, normas e olhares que aprendemos a reproduzir ao longo do caminho.
Nesse diálogo entre prisão e consciência, a obra "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, surge como um espelho tardio dessa liberdade que só se revela depois. Ao narrar sua própria história após a morte, Brás Cubas alcança uma lucidez que não teve em vida. Como se a verdade precisasse da distância do fim para finalmente vir à tona. Há, ali, um conselho silencioso do Bruxo do Cosme Velho: a liberdade adiada e que pode se transformar em arrependimento eterno. Em muitas de suas obras, Machado revela essa inquietude profunda do ser humano que, ao invés de encarar suas próprias contradições e escolhas, projeta no outro a culpa por seus fracassos, medos e limitações.
Essa prisão interna, feita de autoengano e justificativas, ecoa nas gaiolas invisíveis que carregamos, ao nos deparar olhando pela janela, não apenas pelo que fizeram com os nove pássaros ou conosco, mas também pelo que escolhemos não enxergar em nós e não bater as asas.
Diariamente a vida nos convida a compreender que há um caminho de retorno. Um retorno ao “chão”, ao “piso”, ao ar, ao nosso espaço, lugar este que simboliza o reencontro com o corpo, com a intuição e com a verdade instintiva.
Voltar ou retornar, também, reconhecer as próprias feridas, integrar a sombra e resgatar aquilo que foi mutilado.
Os pássaros que estão diante de nós, então, deixam de ser apenas imagem de dor e passam a ser também um chamado. Um chamado para olhar para dentro e perguntar: quais partes de mim estão em gaiolas? Quem as alimenta? E, sobretudo, o que ainda pulsa, mesmo ferido, querendo abrir as asas?
Porque, no fim, a liberdade não começa do lado de fora.
Ela nasce no instante em que reconhecemos que nunca fomos feitos para caber em gaiolas.
Voe!
Por Tatiana Sobreira
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