Pular para o conteúdo principal

Corpos estranhos


Iniciamos a contagem para menos um dia do ano de 2024.

Digitei no Google as primeiras palavras que vieram a minha mente: Corpos estranhos.

Eis a definição que aparece de cara: 

"Os corpos estranhos são objetos ingeridos que podem ficar presos no trato digestivo, podendo até mesmo perfurá-lo. Os corpos estranhos podem ser engolidos de maneira acidental ou intencional. Os corpos estranhos podem vir ou não a causar sintomas, dependendo de onde eles ficaram presos."

Tem tanta compreenção em uma frase tão direta, crua, nua e até invasiva. Revira por dentro e revela o nosso íntimo.

Sempre no início de um novo ano somos impulsionados a continuar, a fazer parte de um corpo estranho que carregamos e moldamos por décadas e que de uma hora para outra nos causa a sensação de que algo ficou preso pelo meio do caminho, subindo e descendo, perfurando a cabeça, estômago, coração, alma e sanidade de todos. Engolimos cada pedacinho, conscientes ou não, desse acidente que teima em querer parecer natural e não intencional.

Os sinais e sintomas estão expostos em todos os nossos póros. E de forma estarrecedora e cômica repetimos os mesmos passos de tantos outros. Entretanto, nem toda roupa bem desenhada e comprada a prazo disfarça aquilo que quer ser expurgado e deixado pelo caminho.

Ma pediram para falar do belo. Somente porque é permitido ser forte. E o que é ser forte? Desqualificar a fragilidade, bondade e leveza e masidão?

São belezas antagonicas e que mesmo assim continuamos os mesmo e eternos contempladores do espelho da vida.

Estava lendo sobre Nero e outros grandes homens da História e o que mais se assemelha aos disfarces do intelecto, são os mesmos julgamentos que imputamos em cada páragrafo manchado de moralidade e bons costumes. Cada olhar que direcionamos aos que não estão dentro dos padrões didatos em uma pequena, minúscula resenha, são os "diferentes" (aqui uma pausa para uma gargalhada e um copo de vinho, porque ante a hipocrisia mais vale a vida dos marginais). São incontáveis mentiras, marketing, críticas, solidão, inveja, avareza, medo e por ai vai. Tudo tão parecido com as mesmas pegadas que nos trouxeram até 2024. O sapiens sapiens perpetuando a sua eterna contemplação no espelho da vida.

Por um pequeno momento, ao olhar o horizonte pela minha varanda, eu disse a minha Amazônia o quanto a amo. O tanto que ela me deu. Mas foi ela ou fui eu mesma?

Prefiro ficar com a segunda opção (por enquanto). 

Até porque, ela é somente ela, Amazônia.

Sou artista do tempo da Amazônia e fora dela. E até direciono esse texto aos artistas e consumidores desse reméddio da alma que é a Arte. Temos que construir mais e mais "artes" que injetam doses de outros pensamentos daquilo que somos por dentro e por fora, além daquilo que o mundo esconde. E quem sabe assim, em algum momento encontremos a inquietude de algum pensamento ávido por uma voz, por uma emoção, por uma provocação, uma aberração, um amor descomunal que deixa entregue, de joelhos, enebriado e quem sabe até um apelo ou uma ajuda para retirar os corpos entranhos que enfiaram goela abaixo e que descem rasgando as nossas vidas.

Em 3 dias, apenas 3 dias de 2024, não existem mágicas para interromper os milhares de anos que ficaram para traz. E os inúmeros anos incontáveis que hão de vir com uma enchurrada de transformações e lavagens estomacáis. Ou quem sabe, um prato vazio e uma sopa fria para mudar o paladar, para então arrumar os novos corpos em nossos corpos.

No final é sempre mais um corpo estranho que caminha com os mesmos sonhos de outrora, viver, mudar, ajudar, crescer e continuar a jornada.

Boa viagem, Peregrino.

T.S.


 

Comentários

Anônimo disse…
Parabéns amiga em todas ss suas palavras que foram lindas e verdadeiras muito obrigado de ser seu amigo

Postagens mais visitadas deste blog

O autor

Um dia, eu estava sentada na calçada da minha casa em Codajás, e um amigo que estudava com meus irmão mais velhos aproximou-se e veio jogar conversa fora. Sempre gostei de diálogos longos que mexessem a minha cabeça revirando meu cérebro. Esse amigo era esse tipo de prosa. No meio da conversa ele lança umas frases meio soltas e sem nexo, o tom quase gritando e exasperado.  Quem passasse pela frente da minha casa, olhando de longe, a conversa mais parecia um palanque para a vida dele ou um bate-boca. Disse: " Eu quero falar sobre a repetição da vida. Sobre a minha confissão, fantasia, imaginação...  Um caso que não é autoral. Eu apresento agora a distorção de histórias vividas ao meu lado, um plágio de dores, um exorcista de destinos. Inúmeros personagens abandonados pelo meio do caminho.  Um perturbação repleta de ausência, negligência, mais outro caso não autoral. Em cada olhar dirigido a mim, cada corpo que se apresentava, pareciam páginas reviradas e repletas de episód...

2024- afinal, finais!

2024- afinal, finais! Ano findando, tudo indo, tudo caminhando.  O que foi plantado vai fluindo e o que foi colhido, investindo e desfrutando. Agora seguimos adubando e replantando, para novamente criar, planejar e renascer.  Em meio a todo esse processo nasceram aprendizados com reflexões, inúmeros agradecimentos e outro tanto de promessas cumpridas, esquecidas e ainda aquelas que foram deletadas e até as que foram transferidas para um próximo ano.  Resta-nos uma certeza repleta de firmeza, com atitudes precisas e a força de boas vibrações. O 2024 também foi cheio de novidades, desafios com velhas e novas amizades, grandes parcerias e excelentes oportunidades. Foi um ano também com perdas irreparáveis, ganhos significativos e novos caminhos até então não sonhado e trilhado. Caminhos que foram se cruzando, desbravados. Estradas foram retomadas grandes parcerias certas foram firmadas e aplicadas. Um ano de contratos e proteção. Foi um ano onde a Amazônia contou a história ...

Ser Artista

O que é ser artista? Eu tenho algo em mim Que não foi parido ou inventado. Nasceu com raízes profundas e tem vida própria. Se move em todas as direções, não tem rota. Algo que acorda, não dorme.  É feito panela de pressão E com um rosário de ideias incontáveis, não se acanha diante do não. Dizem que ser artista é não se vangloriar quando a dificuldade vai embora. É um permanecer consciente da privação que molda diferenças cria belos e grandes aberrações. Ser artista é não ter medo do que nos acomete e nem do espelho. É sorrir e vestir a provocação saber que, o que sobra, são olhares de indiferença, assombro, "pertencimento" ou admiração. Como forma de blindagem da palavra, atitude e emoções ser artista é ser autêntico e não adotar a prática do fingimento e da imitação. Ser artista é ser demasiadamente humano, cientista, inventor, divinal e estar presente em todas as dimensões e planos. É não ser puritano e sentir a pureza mais profunda do plano divino e h...