Ele veio falar nessa manhã de sol tímido. Por entre as árvores avisava o quanto eu estava cega para os olhos do espelho.
Os anos de silêncio e solidão ficaram quietos no canto do quarto observando a cena. Tudo havia sido expulso no final do mês das chuvas e teimava em querer fazer morada em qualquer lugar que pousasse meu corpo. A chuva tentou insistir em querer brigar com o sol por minha preguiça. E em meio a essa confusão aproveitei para sentir o ardor em minha pele úmida e ordenou aos meus olhos e demais sentidos para se aquietarem. O Rouxinol avisou-me que não tinha pressa. Só queria cantar.
Foi quando descamou.
As minhas rugas ressecadas e tensas por dentro da minha pele e do meu coração começaram a ser irrigadas lentamente.
O pulmão alegre com tudo aquilo deu um suspiro de alívio quando o rouxinol voltou a cantar na janela.
Existe um companheiro silencioso e que se faz presente em nossos dias para poder ajustarmos detalhes moldados por dentro do espelho e com picareta de um escultor sem esmero e sem compromisso que aperta o pulso e pula a alma.
O curso da vida se tornou árido demais para não ter poesia.
A poesia se tornou presente demais para não ter renovação.
A melhor maneira de evitar os males da alma é usar o corpo diariamente.
Como poderia não ser generoso se não tivesse sido pobre de espírito um dia?
A pureza voltou a ensinar a minha meditação e ao escultor que precisávamos de euforia e vigor para abrasar os dias de solidão cercados de rouxinóis e das cinzas transformar a terra seca em purificação renovada, simples e fértil e alimento para peixe.
A pele começou a recompor na carne uma nova canção e voltou a reinar nas entranhas da desconfiança.
Se for preciso um rouxinol para cantar e espantar a insegurança pode vir de bando.
Sentindo o chão mais duro, o passo se tornou mais firme e rumo à luta diária, com coragem seguiu em direção a mais uma etapa do novo espelho.
As grandes almas e gênios no mundo já sofreram de aridez e escassez da alma.
As pequenas tentam adoram a fartura e o corpo mole.
Oferta demais nunca fez milagre e nem santo.

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