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Minhas tardes quentes de inverno

 Meio irritada com a lentidão do trânsito pedi ao motorista para manobrar até o supermercado mais próximo. 

Comida sempre fez com que meu cérebro funcionasse melhor.

As prateleiras estavam todas organizadas.

Cada seção bem distribuída. 

A de legumes parecia um convite a contemplação com sua aquarela molhada. 

Parecia cenário de chuva fina.

Os fantasmas das fotografias nunca mentem.

O cheiro e a satisfação de tudo, linha de produção de propaganda, era a maquiagem da perfeição por ali. Nada estava em harmonia com os rostos infelizes dos funcionários e das pessoas comprando. Definitivamente, eles pareciam que estavam caminhando rumo ao nada com suas feições de desprazer em meio às cores.

De nada adiantava os gozos escondidos em seus quartos infelizes.

Mondrian deveria estar se retorcendo com Van Gogh. 

Para que tanta cor e tamanha vida se nada era real?

Bateu um querer urgente em sair correndo para algum lugar.

Dodecafonismo sentimental!

Loucura que me perseguia por dentro, do fundo da cabeça até a saliva amarga que esquentava empurrada pelo estômago.

Tudo gritava na minha boca.

Feito cena lenta de filme sai pela chuva sem direção.

Filme de Lynch...

- - -

Cena I (única cena)

Correr tanto até cansar.

Cansar de tanto correr.

Morrer de tanto correr.

Correr de tanto sonhar.

Viver de tanto correr.

Correr de tanto esperar.

Esperar de tanto fazer.

Fazer de tanto cansar.

Cansar de tanto viver.

Morrer de tanto esperar.

Esperar de tanto viver.

Viver de tanto morrer.  

E cair no chão.

Molhada de suor e sem fôlego.

Sem expectadores de tantos palcos e espetáculos, somente para respirar e gritar.

Gritar com som forte.

Gritar sem parar para ninguém ouvir.

Cantar até sumir.

Sumir até chorar,

E chover sem parar até findar numa chuva fina. 

- -- --

Deitada no quarto, aconchego, envolvida num abraço especial meu e dos meus braços brancos e firmes olho pela janela.

As tardes quentes do inverno amazônico.

Data perfeita para renovar a alma.

Obrigada, 2020.

   

 Por Tatiana Sobreira

Comentários

Luizfradao disse…
O melhor postal das cidades são os seus mercados.
Cada um tem seus agitos, prateleiras e contrastes de cores e sabores. Retratam os nativos com peculiaridades e costumes.
Os frutos da terra, realmente, contrastam com os olhares e humores; tristes, vagos e explosivos.
Não busco ali a comida. Busco o conhecer de novo cotidiano.
Gostei de sua visão.

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