Prezado escritor, ou melhor dizer: Caro conterrâneo.
Por aqui, na terra que nos expulsa diariamente (Manaus), as coisas não andam nada bem.
Todos os livros e memórias dos seus personagens se perderam dentro deles mesmos. Foram trancafiados com a Mulher que dorme na Alma e jogaram a chave no fundo do Rio.
Olho angustiada para as lembranças das minhas e suas saudades que nem sei se existiram um dia. Foram roubadas do “algo” que nunca foi vivido nem por mim ou por você devido o sepultamento de todos os sonhos, ainda no ventre, dessa pátria Manauara desalmada. Será que todos os relatos são reais mesmo ou é somente essa nossa Manaus que teima em sofrer e fazer sofrer?
Tudo está adoecido e tem muita podridão em todo lugar da cidade, em cada esquina e olhar velado de medo.
O morador empobrecido por tudo e por todos conseguiu descer tantos degraus que nem a Luz do Sol, do nosso Amazonas, esturrica mais a sua moleira. Ficou muito mais podre, sozinho e abandonado. Acreditávamos que não conseguiriam isolar mais ainda o nosso caboclo. Pois é, não só conseguiram como "despersonificaram". Agora ele não parece ser ele e nada mais. Surge um novo produto de qualquer coisa não Manauara. Um zumbi de coisas. Adoecido da ausência de esperança, de tanto lixo, falta de trabalho, trânsito caótico e todos adoecidos.
Não se trata de questão financeira, Escritor. Tudo ficou mais pobre da percepção do limite, um pau de sebo de famílias. Ficamos sem as tardes nas praças e prosas boas, da alegria natural e de viver as nossas leseiras sem ter que prestar contas aos patrões enlouquecidos por curtidas e compartilhamentos de faz de “conta-da-perfeição” e inclusão social/ambiental/cultura/de mentira. Hoje é proibido viver as benesses da nossa Manô que um dia pensou na sua gente.
O Homem do norte perdeu o Norte.
Perdido e sem direção, com a identidade em adotar e amar a todos, amarga sem perfil para poder sobreviver dentro do lar e dentro dele mesmo. Esse homem do Norte chora pelos cantos e dentro dos ônibus lotados com medo de tudo sem saber qual o destino no final da linha.
Um surdo tremor passa pelas artérias e entranhas da nossa Manaus. O porto que sepulta a nossa história, celebra uma marcha fúnebre diariamente entre cadáveres e lixo a céu aberto. O suor tem cheiro de desencanto e desorientação. Fede com os dejetos do PIM e dos Prédios gigantescos da maior praia e cartão postal da nossa cidade. Combina bem com a cara da nossa Manaus atual.
E para os caboclos que mergulham no rio das suas infâncias, hoje mergulham nas águas dos esgotos da cidade.
Hatoum, sabe o nosso Rio Negro?
Pois é, o estômago revira. Agora entendo o motivo de ele ser Negro. Tem muita sujeira ali por baixo para não revelar as mortes diárias. Ele também tem outra vocação: diariamente é testemunha da história e sepultamento da cidade. Os esgotos, sem distinção de classe, “bosteiam, bostiam, cagam” o que um dia nos limpou a alma, alimentou famílias e nossos sonhos de ganhar o mundo com a Amazônia brasileira.
Hatoum, responda-me, por favor! Ao nos batizar, ele nos limpou, sujou ou foi um batismo de sangue e condenação?
Tímido escritor, não existe testemunhas, réus e absolvições por aqui. Todos nos tornamos culpados com as nossas omissões, puxadas de tapetes, bajulação, usurpação, escolas de escrotices e apertadores de botões da morte. Olha o que fizemos com nossa Manô?
Tu recordas aquele cheiro de café que sentíamos, quando ao aportar às embarcações no porto de Manaus? Foi embora com as águas do Negro. E sabe-se lá Deus se tem um porto para atracar essas lembranças.
Escritor conterrâneo escolheste bem em viver em outras paragens. Assim poderás morrer no mar ou em outra terra de concreto do que às portas de uma Manaus que mais parece uma terra umbralina dos escritos espiritualistas. Diariamente somos assaltados e condenados a transfigurar as nossas limitações e transformá-las em mendicidade por algo que nem sabemos. Somos assolados pelos invejosos e mesquinhos. E nós de mãos postas recebemos hóstias governamentais e de empresários. Somos rodeados pelas ratazanas que buscam suas presas para bancar suas orgias, plásticas, viagens, e futilidades. Nessas horas que seria bem melhor morar dentro da Boiúna.
Corre em boca miúda que as lendas, histórias ou as invenções do PIM (Pólo Industrial de Mentiras) irão sobreviver aos descontroles ambientais e sociais da encorpada Manaus.
Hatoum, Manaus está doente. E nem te conto, ó!
Alonguei-me para poupar sua dor.
Manaus está na UIT.
Coma induzido.
Já foi decretada morte cerebral.
Os “pais” da nossa Manô não querem deixar que desliguem os equipamentos.
Soube que ta um pau de briga para saber o que diz o testamento.
Descobrimos que tem mais filhos bastardos do que já se viu, acreditas escritor? Quem diria que nossa Manô havia se deitado com tantos assim?
Bem... Fico por aqui, Hatoum.
Espero ter a possibilidade de abrir mão de tudo para contar a verdade sem medo.
Qual tribunal poderia Julgar nossa Manaus?
Nossa Manaus não tem culpa de Nada.
Com lágrimas e Cinzas no meu Norte...
Por Tatiana Sobreira

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