Manaus, 01 de agosto de 2018
Oi Mãe, sua bênção!
Resolvi perguntar e procurar saber como estão as coisas por aí. A senhora está se adaptando? Está cuidando mais da sua saúde? E essa cabeça? Anda pensando demais?
Mãe, eu tinha tanta coisa para lhe perguntar, falar, compartilhar, que tudo sumiu diante dessa saudade que queima em meu coração.
Mãe farei desta carta uma espécie de interrogatório e confessionário. O que a senhora tanto pensava horas a fio sentada naquela cadeira e deitada naquela cama lá em casa? Cansei de ver o seu olhar perdido no nada. Mais parecia em busca de alguma resposta que nunca iria chegar. Será que a mulher que muito indaga dentro de mim é a mesma que habitava os seus dias?
Mãe, não se chateie comigo com o que direi, mas agora creio que a senhora já saiba. Por vezes neguei tudo o que a senhora se tornou e hoje me assemelho mais ainda com o que a senhora foi em vida. Isso não é ruim, mal ou cópia. Hoje compreendo que o que sou é um presente e uma honra em ser parte da mulher que a senhora foi. Uma dádiva.
Mãe, ontem senti a distância e a falta de amor e presença dos meus filhos. Hoje sei a ausência e dor que causei no seu coração e no do papai quando saí de casa. Uma dor tão funda. E nas duas situações causadas diretamente por mim.
Mãe... e Deus? Ele falou com a Senhora? Eu tenho perdão de vocês? Eu consertarei o que fiz?
No ano passado, nesta data de hoje, a senhora estaria agonizando os seus últimos dias. E sabe o que me veio a mente agora? Que o ser humano é engraçado e desprezível. Não precisamos saber de fato a data que partiremos, só assim perceberemos o tamanho e a real importância de tudo o que nos cerca nessa nossa existência de formiga. E em boa parte só fazemos bobagens e ainda achamos que estamos certo e somos donos da razão.
Será que a senhora já está acordada, consciente aí do outro lado? E se sim, vai retornar em breve ou aguardar um pouquinho mais por todos nós? Creio que a senhora irá retornar bem antes do previsto. Conhecendo o coração generoso e bondoso que a senhora tem, vai dar um jeito e convencer a todos que precisa ajudar a família.
Sabe o que eu soube, mãe. Que quando morremos, o cérebro ainda permanece consciente. Então a senhora estava vendo e sentindo todos nós, né Mãe?
São quatro e meia da manhã. Olho para as três Maria, no céu, e parece que perderam a beleza. Lá no céu de Codajás eram mais brilhantes e as histórias que a senhora nos contava madrugada a dentro sempre foram mais bonitas e emocionantes.
Mãe, não se cale mais. Responda, por favor!
Chega de silêncio!
Mãe, mesmo eu e meus irmãos lhes dizendo que amávamos a senhora, não lembro de ter dito que amava o seu jeito de ser. Aquela viradinha de cabeça envergonhada. Aquele jeito simples, sorriso leve quando lhe oferecíamos algo e a senhora aceitava com tanta humildade que dava vontade de lhe apertar tão forte.
Que mulher de personalidade cativante. Por vezes forte e depois doce, pura, amiga, livre, direta. Quanto amor dentro de uma pessoa. Parecia não ter fim.
Mãe, quando é que deixamos de ser mãe, seres humanos e passamos a ser mobília, invisíveis?
Fico imaginando quanta solidão a senhora deve ter enfrentado. Fomos tão egoístas que não percebemos que a senhora precisava de um outro tipo de diálogo. Algo mais seu. Mais pessoal, mais por dentro. Será que estou falando da senhora ou de todas nós mulheres, mãe? Creio que estou falando sobre mim.
Mãe, percebi que somos tão egoístas, ignorantes e infantis em nossas ações e demonstrações de carinho uns com os outros. Tudo adiamos e esperamos não sei o que ou quem para agirmos.
Sabe Mãe, sempre demonstrei uma imagem tão forte em tudo o que faço, mas sou um passarinho. Agora mesmo estou com um medo daqueles! Apavorada em não saber trilhar o caminho que falta e permanecer nele para evoluir e progredir aqui nesta prisão chamada carne.
Mãe, tenho algo para lhe contar. Preciso voltar com força total às atividades na arte. Cantar, pintar, compor, escrever. Preciso da minha arte maior: meus filhos em Casa.
Expulsar do meu caminho tantos encostos e não ser somente arrimos de lamentações. Correr livre como sempre gostei e com responsabilidade de sempre. Mãe, antes de tudo, todos os que cruzam os nossos caminhos, a senhora sempre dizia, que eles têm que ter seus guias pessoais, que cada um cuide dos seus e não podemos interferir e se o fizermos, ficaríamos com duas responsabilidades.
Mãe, outra coisa... Foi difícil a passagem? Ainda nos veremos nessa vida?
Estou com sono agora. O dia já está raiando e meus olhos inchados de tanto chorar, me impedem de escrever, mãe.
Peço sua bênção!
Até outro dia, Mãezinha! Descanse.
P.S.: Carta escrita em desabafo para minha mãe que faleceu em 2017.
In Memoriam Maria Izalinda de Souza Sobreira
Nascimento 28/11/1952
+ 15/08/2017

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