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Cava






Tudo é tão grande e distante.


O que separa corpos, não é somente espaço e dimensão. É tudo o que está inserido no lugar.

Árvores, rios e muita vegetação fechada envolvem e preenchem o pensamento. Tudo é tão convidativo para pausas.
A própria humanidade deu um jeito de deixar ao acaso o que ela mais prezava, a vida.




Hoje tenho o entendimento do motivo que levou algumas civilizações a decretarem isolamento social.
Sempre nutri orgulho e felicidade em pertencer a região norte do Brasil. Cada gota, cada partícula, cada folha representa vida nova e esperança.

Tudo se transformou em nada quando fiquei refém de um pequeno vírus. Ou tudo se torna “tudo” quando entendo que não sou nada.
Condenada na carne.
De dentro para fora.
Silenciosamente destruidor.
Sussurrante e bisbilhoteiro, o vírus sabe todos os segredos.
Doenças, multidões destruídas e com ela, algo maior que fica exposto: ignorância das mentes e almas doentes.
Essa é a maior doença de tudo o que já existiu.
Sinto-me às vezes à beira do desespero, quando penso que, após todas as minhas pesquisas, todos os livros que li, entrevistas que fiz, pessoas que conheci, viagens transformadoras, tenho certeza de que não sei nem de onde venho, o que sou, para onde vou e nem o que me tornarei. 
Compreendi que quanto mais luzes tenho em meu pequeno e insignificante entendimento, mais clareza, transparência e sensibilidade no meu coração, mais infeliz fico diante do espelho da vida.

O caminho do saber é solitário, corajoso e depurativo.
Hoje fui visitar uma comunidade indígena em Manaus.
Mais de 700 famílias, 35 etnias indígenas. 
Quando olhei nos olhos do Brasil de origem chorei por dentro.
Quase que diariamente, por ali, mais de cinco novos casos da COVID-19 são registrados naquela área.
O que mais habita por dentro do Brasil que não é testado, estudado, pesquisado e documentado?
Segundo eles, foi preciso um vírus, para que autoridades notassem quem são de fato: humanos.


Estamos todos perdidos ou nunca nos encontramos?
Somos todos iguais desde o princípio. Medos, aflições, perdas, amores, crenças.
Tudo o que se quer na verdade é preservar a 
espécie e nada mais.

Fotos Brayan Riker


Por Tatiana Sobreira

Comentários

Unknown disse…
Muito bom o texto.
Além de linda e boa gente, inteligentíssima!

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