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A Arrumadeira

Conto
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As costas parecem receber facadas. Que cadeira mais desconfortável.
Pego o jornal amassado na mesa da sala, e na sessão de classificados, leio histórias engraçadas e anúncios sem sentido. 
O que prendeu minha atenção foi o desabafo agoniado de uma mulher.
O texto dizia:

"Cara Julieta, ainda bem que hoje é dia de faxina.
 A arrumadeira pegou o leite azedo na geladeira que empestava com odor azedo todo o andar. Mais uma vez havia esquecido de pagar a conta de luz.
A grana sempre curta ajuda na criação, mas o meu ofício fez-me desacreditar da realidade e do futuro.Ofélia ronronou em minhas pernas.
Apaguei mais um cigarro, levantei e fui em direção ao banheiro. Meu reflexo mais parecia o de um carteiro suado e sem destino.
Olhei meus textos no computador e deu vontade de escrever não para campanhas, mas para alguém que pudesse ler minhas verdades: Leitor, escrevo para todos os gostos dos clientes.Vendo produtos e pessoas. Sou pago para enganar e fazer da mentira a verdade inteira e não pela metade. Sou pago para roubar idéias e sonhos. Solicitado para recolher opiniões e pontos de vistas e os faço perder de vistas. Sou convocado para arrumar linguagens imundas e estrelas cintilantes. Abri mão daquilo que sou para escrever amontoados de ideias em prateleiras. Me transformei em momentos e não eternidade. Das frases que construí distanciaram-me de tudo o que sou.
Hoje sou espelho.
Vendo informações para criar e transformar o mundo das máscaras e do faz de conta.
Eu sou criador de ilusões!
.
A arrumadeira bate em meus ombros. Ela precisa sair..
Enfio as mãos nos bolsos e retiro uma nota de R$200 reais...
- Ô seu Lázaro, o que eu faço com o troco?
- O troco? Trás de pinga! "

Bêbado, dobro a folha do jornal e aproveito para sair..
Ainda bem que a arrumadeira sou eu..

Por T.S.

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