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"Me voilá"

O voo estava atrasado mais uma vez. 
Fazer conexão sem poder sair de dentro da aeronave era nada menos do que uma sensação de aflição para quem estava amarrado ‘aquelas cadeiras, e a de controle sobre mais de duzentas vidas.
Pensando assim poderia até dizer que o destino não se destina.  Mais parecia que uma criança estava brincando de casinha.
Marionetes em mãos culpadas.

Já estávamos há mais de duas horas sentados devido um forte nevoeiro. 
Nesta época do ano alguns países da Europa ficam encobertos e a visibilidade era quase zero.
Paciência era uma virtude que nunca gostei de exercitar. 
Sempre achei inútil quando poderíamos ser práticos e frios em decisões que requerem agilidades. Ali aplicava-se bem. 
Todos os recursos utilizados para distrair quem estava a bordo tornaram-se entediantes. Nem os livros e qualquer outro “estimulador de memória” seriam produtivos.

A senhora sentada ao meu lado falava sem parar. 
Quanto incomodo eu devia causar para algumas pessoas. Habitualmente eu falava sem parar. 
O mau hálito dela incomodava mais do que as palavras de reclamações e queixas da vida que tivera. Nada mais do que a velha história chorosa, comum para quem está acostumado a reclamar de tudo, placebo dos mortos-vivos.

Nestas horas assim o silêncio sempre é e será a melhor companhia. 
Agora depois de uma exaustiva falação refleti que como se já não bastasse a minha própria companhia, mesmo farta dela e dos meus ininterruptos pensamentos, não conseguia livrar-me de mim mesma e nem de um avião carregado de pensamentos de mais de 200.

Ao olhá-la ao meu lado notei o quanto nosso semelhante tem um que de hospício que habita em nós. Aquela fraqueza toda fez-me olhar a minha própria sombra. 
Quem adoece os fortes são os fracos. 
Isto é sabido? Isto é justo? E o que é justo em terras de canibais, de predadores?

A voz da aeromoça trouxe-me de volta. 
Todos ficaram em silêncio. 
Enfim iríamos dar continuidade ao nosso destino. 
O tempo começou a abrir e meus pensamentos tomaram outra direção.

As próximas doze horas de voo seriam menos dolorosas do que as palavras de devoção e medo que estavam sendo jogadas em minha cara feito um rosário sem fim. Aquela Senhora não tinha limites para ladainhas. Eis mais uma prova viva de que a divinização, o medo e outros adjetivos do gênero, fizeram do homem um sanguinário por dentro e por fora. 

Até quando o sofrimento será a moeda de compensação para pagar dívidas nas vidas das pessoas que estão sofrendo e não encontram soluções para saírem do que construíram para sí?

Quanto rancor há no fundo de todo amor choroso. 
Quanta negação do seu eu há em todo gesto de carinho direcionado a algo ou a alguém. 
Nos anulamos para sermos amados.

Levantei e fui perguntar para as aeromoças se havia outra poltrona disponível. 
Para meu alívio sim. 
Olhei de longe a senhora que me acenou de volta. 
Entendi que as próximas 12 horas seriam minhas companheiras. 
Alívio imediato.

As 12 horas, os mais de duzentos passageiros, os milhões de pensamentos, as canetas em minhas mãos, as letras que saiam sem parar, foi uma grande descoberta ao saber que verdades por caminhos mentirosos e mentiras em caminhos verdadeiros lembram-nos o quanto somos fracos e falhos.

As vezes as melhores mudanças acontecem quando revisitamos o passado. 
Eu estava naquela aeronave que falava para meu futuro, mas com um destino no passado. Muitas vezes tenho uma certa dificuldade de dizer sobre pessoas, sobre fatos, mas percebo que pessoas não tem dificuldades em dizer sobre o que acreditam que sou. 
Sempre repletas de conceitos e opiniões. 
Como se mostram inteligentes e fazedoras de pessoas. 
Afirmam que sou crítica, ou até pareço-me com a investidura de uma “Juíza”. 
Onde esta causa, que nunca juguei ou ainda hei de julgar, estará livre das minhas mãos? 
São tantas escolhas por tantas vidas. 
Certamente no meio das infinitas possibilidades é que as melhores coisas, independe de serem carregadas de verdade ou mentiras criadas por nós ou não, sempre nos parecem dadivosas.

Definitivamente o único jeito de seguir em frente é revisitar as casas do passado que estão nos aprisionando. E o comando dentro da cabeça é somente um: não importa quão assustador tudo pareça, é respirar e seguir. 

Sorri ironicamente.
Como é gostoso quando passamos desta fase. 
Gratificante.

A voz do comandante trouxe-me de volta a minha ilusão. 
Estávamos pousando.
A sensação de dever cumprido é a certeza do fim. 
Eu tinha a Europa toda para explorar. 
O que estaria por vir seria mais um passo decisivo na vida.
Me voialá!


Tenho dito....

TS


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Comentários

BRITO disse…
lindas poesias, já sabia do talento

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