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Dívidas foram feitas para serem pagas ou não?


Escrever nunca foi tarefa fácil.
O papel em branco amedronta qualquer um. Mas para quem escreve, palavras sempre serão companheiras.

É gratificante olhar em volta e saber que tudo por dentro fala tão amigavelmente que o que está por fora não sobrepõe em nada o que nasceu quieto e o que grita, desesperadamente, por livre expressão.

Fui arrancado dos meus devaneios com o barulho de buzinas que advindas das ruas. 
O escritório rescendia a urina. 
Os odores das redondezas denunciavam o que estava em volta daquele estabelecimento. Difícil alugar uma sala naquela cidade tão cara.

A porta estava fechada.
Qualquer empurrão revelaria a desordem e imundice que nada tinham de diferentes dos becos do entorno.

Dei um puxão na gaveta da escrivaninha. 
Precisava terminar de preencher as fichas. 
Será que ainda tinha papel? 
As fichas ficaram pendentes na noite passada.
Nunca me entendi muito bem com elas.

A gaveta estava com cheiro de cachaça e cheia de cocaína.
Essa pocilga ainda vai afundar-me.

Quando eu poderia imaginar que um contador brilhante na universidade estaria agora preenchendo fichas para aposentados¿
Em frente à mesa olhei meu reflexo no espelho
Os cabelos ensebados, imundos estavam começando a rarear. As rugas em torno da boca e dos olhos deixavam-me com mais idade do que aparentava. O pescoço estava flácido. A blusa suja e sem botões caiam bem para aquela silhueta gorda.

Estava cansado de correr em busca dos milhões que nunca chegaram.
Quantos anos eu tinha mesmo?

Tomei um susto quando a porta bateu forte.
Era Dona Eugênia que estava passando para saber se eu queria a garrafa de café que sempre vendia pelas redondezas.
Esta mulher também tinha uma história parecida com a minha, aliás, todos que estavam naquele quarteirão eram retratos de uma sociedade que comprara sonhos em Universidades. E ainda chamavam isso de Sucesso!

Paguei alguns centavos pela garrafa do pouco que sobrara da noite passada. Pedi para algo para comer. A dor no estomago e fígado não dava tréguas. Quanto mais chapado, melhor! A dor sumia. 
Comia-me por dentro como um animal sem piedade quando eu não consumia drogas. A vontade que eu tinha era de mandar todos irem 'a merda. 

Quase oito da manhã e olhava os papéis. Todos em branco. Este foi o resultado da demissão dos dois funcionários: papeladas acumuladas, computador desatualizado, cadastros perdidos, e a contabilidade¿ Tudo jogado fora. A grana curta nunca dava para pagar nada. Sem falar nas infinitas reclamações trabalhistas e intimações.

Dona Eugênia trouxe-me um sanduíche qualquer de pão duro com ovo. Comi mesmo com dor e tomei aquele café que mais parecia urina de gato.

Pedi para pendurar e depois pagaria aquilo. Ela reclamou, como sempre, dizendo que o marido estava sem trabalho e que ela sustentava a casa e os 8 filhos. Pedi para que saísse e que em 10 minutos daria o dinheiro.

Aproveitei a saída de Dona Eugênia e fiz a mesma coisa. Fechei a porta. Atrás ficou somente um pedaço da minha infelicidade, e o restante que não me largava, foi comigo. 

Precisava ir 'a um hospital. Não aguentava mais de dor. Neste momento vi o Antunes. Estava no ponto de taxi, como sempre, lustrando o carro que tinha mais valor que a própria família. 
Aquele sujeito era trabalhador. 
Era dos tipos que tem a mania de contar vantagens em tudo. 








Finalmente a dor de estomago venceu. Desmaiei.










Quando despertei estava no corredor do hospital com uma agulha no braço. Soro. 
A vista turva, língua pesada, a cabeça também. Vozes distantes. Correria sem fim Pessoas gritavam. Cheiro estranho de queimado. Voltei a dormir. 
Acordei em uma sala cheia de macas e pacientes. A claridade doía nos olhos. O cheiro de queimado ainda persistia.
Um homem em pé ao meu lado olhou-me e vi que estava mexendo na minha barriga. Perguntou se eu sabia como havia parado ali.
Olhei em volta sem saber o que dizer. 
Ele começou a sorrir estranhamente. 
O outro lado do rosto dele começou a sangrar. As pessoas começaram a gritar na sala. Suava sem parar... 
Olhei para baixo. Minha vísceras estavam para fora. O homem segurava meu fígado em suas mãos. O cheiro ficou mais forte. Enxofre. Todos corriam e gritavam. 
Abri os olhos. 
Vi que estava dentro de um caixão.  
Enterrado vivo.  
Agora não podia seguir...







No cemitério o cachorro mijou em cima da sepultura.



Dona Eugênia sorriu com o dinheiro no bolso. O veneno diário, servido naquela garrafa de café, pagou a dívida do desgraçado. A morte dos meus pais estava vingada. Isso se faz com quem mexe com dinheiro alheio. Um dia a cobrança bate 'a porta.

Sorriu e saiu caminhando na chuva fina.
A cidade sorriu de volta.








"Esta é a vida do homem livre prisioneiro. 
Sempre a beira de ruínas e lembranças. 
Vangloria-se da sua inteligência e pesa a própria vida tão sobrecarregada por outras vidas. Adia tanto a sua ida para o mundo que sequer tem espaços para perceber que morreu há tempos. No tempo em que começou a caminhar com o outro homem. 

Uma flor para você."


Tenho dito
TS



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