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Rua 29, esquina com a 19.


“Quem bate tão forte assim na porta?”
“Calma! Já vou abrir!”

A noite estava fria e chuvosa. 
Convidativa para caminhar só nas ruas escuras, mas um perigo para quem quisesse se aventurar pelos becos tão tarde da noite.
Olhei pela janela:. lá fora era endereço certo para desencontros.
Nervosa, devido a situação em que me encontrava, talvez fosse a minha mente que estivesse criando alucinações. 
Meu corpo estava coberto de suor.
Cada gota que escorria denunciava o que os corpos escondiam.
Peguei as chaves do carro no bolso da calça molhada de suor. Chaves leves e sem vida.
Nestas horas de agonia as opções para qualquer saída são quase nulas. 
Não tem tantas portas de saídas para poder escapar.

Não paravam de bater na porta da frente, na de trás, e quanto mais eu olhava, mais batiam.
Novamente fui conferir quem era. Não era ninguém.
Estava enlouquecendo com aquele barulho todo.
De repente começou uma chuva daquelas que caia agora sem perdão lá fora. 
Se eu gritasse ninguém escutaria a minha opção (por morar distante) não me favorecia nestas horas de desespero. Paguei um preço alto pelo isolamento social.
Não existem tantas entradas e saídas nestas horas do medo.

No desespero passa um filme e percebo que os caminhos que tantos fizeram na vida eu
também os fiz.
Triste saber que todos somos iguais.Não existem especiais.
Os olhos que me contemplam agora de qualquer lugar e sem eu saber de onde são de estranhos que não se conhecem mais.
São sem vida. Não há brilho que o valha.

Agora a agonia de saber que nunca tive a necessidade de ser contida me fazia companhia.
Quando assim tentam fazer, como agora me sinto, tudo o que “É” naturalmente se esvai e se permite não se prender em nada. É a minha rota de fuga contra o controle.

Minha respiração estava acelerada. O coração aos saltos. Meu suor tinha um gosto tão salgado. Não sabia se chorava ou se suava....O pavor era tamanho que eu estava paralisada.
Eu ouvia os risos atrás das portas.
O vento que batia nas janelas.
Os solavancos na maçaneta.
E eu parada ali no meio da sala, em pé, com as mãos nos ouvidos.
Não caibo dentro de coisa alguma, nem em mim existe coisa que caiba.
Transbordo para além, para além das vistas e pensamentos alheios. Nada me alcança. Nunca quis ser alcançada.

A minha armadura não foi feita para moldar mortais.
Foi feita para imorais beberem na minha essência.
Carrego coisa sem precisão.
Nutro e enriqueço a minha neurose sem nunca ter perdido o alimento para a minha lápide feita de madeira e sem epitáfio.
Não grito para mim coisas imutáveis de todas as coisas mudáveis, já dizia o Santo, e se o Santo disse, eu assino embaixo.

Inegável como a noite conta ao medo as piores histórias.
Estas são as que transformam vitimizados em heróis ou vilões e depois de tudo sempre são as melhores histórias para os dias que seguem implacáveis no esquecimento.

Fechei os olhos por um instante apavorada quando os abri eu estava em minha sala com uma xícara de café quente nas minhas mãos. Como estava quente, quase me queimou.

E as crianças corriam na rua. 
Era dia de muito sol.
E eu delirava absurdamente feliz.

A mentira tem dessas coisas: é a companheira inseparável da imaginação.
É.
Imaginação é coisa de quem vive nesta pele humana.
E você? Mente, Alienigena?
Ainda bem que continuo na Rua 29, esquina com a 19.

Tenho dito

TS

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