Só sei que foi assim...
"Nasci numa tarde de domingo
ensolarada, segundo dia de primavera, ‘as 16 h do ano de 1973.
No quarto, minha mãe sofrendo
todas as dores da fêmea ao enfrentar a coragem em dar continuidade a espécie.
A
correria na casa era intensa.
Meu pai, do lado de fora, só pensava no trauma que
ocorrera no nascimento da primeira filha.
Mais uma vez, aquela agonia em perder minha
mãe o aterrorizava, sensação terrível, logo: nascimento de filho sempre aflição.
De dentro do
quarto somente gritos e uma parteira, que vira e mexe, saia de lá com panos e
bacias para tentar oferecer o direito de uma acolhida mais suave 'aquele novo ciclo que
se iniciava: a número 5 dos filhos do casal.
A parteira, numa calma que irritava meu
pai, nesta seriedade e segurança que as mulheres deste ofício sabem bem como
proceder, o deixava mais aflito.
E eu lá no ventre de minha mãe poderia jurar
ter ouvido exclamar:
- Calma, Cumpadi! Tudo está sobre
controle!- Repetia ao passar por meu pai.
Por mais que afirmasse isto, meu pai não conseguia relaxar e suportar a dor que
minha mãe sentia. Aquela mulher o acompanhou a vida
toda. O seu sublime amor, Dona Maria.
De repente, senti uma força que me
expulsou daquele lugar seguro e um clarão absurdo nos meus olhos. Uma mão
firme e rude a me puxar pra fora do meu cantinho. Meu corpo todo sacudido, e logo, minhas narinas e pulmões rasgados pelo ar.
Que dor absurda!
Grito, berro
desesperada de dor, agonia.
Cortam meu laço com ela.
Engasgo, enfiam as mãos em minha boca, viram
e reviram de cabeça pra baixo. Cega nem conseguí abrir os olhos tamanha a claridade.
Eu estava tão bem em minha quentinha escuridão.
Por que fizeram aquilo comigo?
Retiraram-me do meu cantinho quente e aconchegante de minha mãe...
Agora, eu
estava sozinha e naquele lugar, apanhando e respirando com dificuldade.
Minha
barriga queria algo que eu não sabia, eu queria
minhã mãe...
Esvaziei-me em fezes, gritei novamente, urrei e ouvi a voz dela,
daquela parteira, dizendo:
- É uma menina, Cumadi! Linda e
forte. Branca e perfeita. Olha a mancha no bumbum dela. Vai ser uma menina e
tanto,hein Cumadi!!? Vai dar trabalho!
Eu lá queria saber se ia dar
trabalho.
Queria era ficar no meu cantinho e ninguém atendia meu desejo.
Senti frio,
meu corpo todo doía, e eu chorei, ninguém compreendia 'as minhas dores do
nascimento, só estavam ocupados com as dores da placenta de minha mãe que
expelia pelo quarto rios de sangue e gosma.
Gritei de novo, chorei, berrei, foi quando senti
os braços dela, minha mãe. Segurou-me e colocou em minha boca aquele peito pra eu sugar com
força, minha barriga doía, ardia, arrebentava tudo por dentro, meu corpo
parecia que ia ser despedaçado em pedaços pequenos, parecia que meu intestino viria por baixo de tão forte que era a dor.
Gritei mais uma vez e ouvi a voz
irritante da parteira dizer:
- Segura forte, Cumadi! Ela tem
que aprender a chupar o bico.
Minha mãe, chorando de dor,
segurava a minha cabeça fazendo um barulhinho com a boca pra eu me acalmar. E
eu ali nem sabia o que era.
Digo mesmo:
Nasci a contra-gosto. Fui expulsa do meu lar e ninguém entendia que eu só queria que aquela dor passasse e empurravam as tetas grandes de minha mãe na minha boca.
Nasci a contra-gosto. Fui expulsa do meu lar e ninguém entendia que eu só queria que aquela dor passasse e empurravam as tetas grandes de minha mãe na minha boca.
9 meses naquele paraíso foram
dizimados em questão de segundos ao nascer. Agora iniciava a minha ascensão da
vida rumo ‘a morte."
Tenho dito.
P.S.: Qualquer coincidência, é mera semelhança....kkkkkkkkk
T.S.

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