Lembro como se fosse hoje quando ela surgiu dentro de mim.
Não veio arrumadinha, pronta, arranjadinha.
Veio de forma arrasadora e sem avisar.
Bem entrona mesmo.
Nem deu importância se era muito cedo para uma menina.
Corre em bocas miúdas que idade não tem importância para a poesia.
Veio sem pretensão, meio pelos cantos, mas sabia muito bem
como se alojar.
E não é que a sapeca se alojou?
Eu estava sentada, aos nove anos de idade, em meu telhado de
brasilite, na minha pequena cidade de Codajás do meu imenso Amazonas, e ao abrir os
olhos, vi aquela revoada de andorinhas num ballet fantástico, parecia que a
quinta de Adaggieto de Mahler estava sendo executada bem diante dos meus olhos, e diante de mim...
Ao fundo aquele pôr-do-sol cálido em tons do violeta, rosa, laranja, amarelo, ao cinza suave. Tudo tão perfeitamente misturado em harmonia singular...
A noite chegava de mansinho engolindo as luzes do
dia e fazendo raiar os primeiros pontos estelares como pequenos olhos a observar mansamente....
O cheiro da mata orvalhada pelo sereno, o som da
cidade, crianças gritando em suas brincadeiras, pessoas conversando, um galo
cantando timidade, buzinas de moto, trote de cavalos, e lá ao longe a canoa a deslizar
naquela imensidão de águas do meu rio Solimões...
Neste primeiro contato com a poesia eu
chorei,...chorei tanto, tanto...
Não conseguia atinar para tamanha
maestria...assim se deu ao longo da minha pequena existência em contato com
ela, a ditosa poesia...
Ela se fez presente no dia que ganhei meu primeiro concurso de musica, na saída da
minha casa rumo ao meu destino, no dia em que falei pela primeira vez ao
microfone de uma rádio, no dia em que meus
filhos nasceram (todos 3), no dia que me
vi gravando meu primeiro programa de televisão, em todas as viagens feitas para
fora do pais, no dia em que encontrei meu A.,...
Hoje a poesia me fez ver a sua Utilidade na minha vida: ela
me deu vida e não me deixou morrer.
A poesia fez seu trabalho.
Hoje, eu faço o meu.
Grata por tudo o que me deste, minha santa mãe e pai Poesia. Estou em dividas e não tenho mais dúvidas.
Parênteses; -Um dia eu encontrei um senhor chamado J., e o que vi da vida
dele me chocou. Vocês não iriam gostar de saber o que fez e como ficou J., pois
este, era somente um arremedo do que fora um dia, um viciado no passado de uma arte perdida e nada mais. Pobres J´s....
Poesia, obrigada por tudo e por tudo ter me obrigado.
Poesia, gratitude sem gravidade.
Por hora, não existe mais utilidade.
Se não há utilidade, não
tem nada.
E se nada tem, tem poesia.
Tenho dito
Namastê
T.S.

Comentários