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Um certo peixe que nem boi é.



Corríamos sempre na rua da frente da cidade.
Cada criança no fim de tarde, após a sessão da falação dos adultos em frente de casa, tinha a sua esperada hora de diversão.
Sempre iniciava depois das 18 h.
A cidade entrava numa semi-escuridão.
Compensava com as peraltices que aprontávamos.

No sábado, eu, meus irmãos e metade da cidade se dirigia 'a igreja.
O Catecismo. Coisa séria.
Ao lado de casa tinha uma espécie de estufa de jutas.
Incrível como aquele cheiro ainda reside em minha memória.
Minha mãe preocupada  nunca deixava que fôssemos sozinhos até a casa dessas pessoas e de outras.
Com o tempo aprendi o que os adultos solitários fazem e não fazem as claras e escuros da vida.
E depois, nunca tínhamos tempo de sobra. Era escola, limpar a casa ou estudar.
Ainda assim, aquele cheiro não saia da minha cabeça.
O incrível é que criavam  um peixe-boi dentro de um tanque.
E como tem adulto que prende animais feito crianças que não podem entrar em casa de adulto. Que tanque de humanos.
Eu e meus amigos passamos a perceber que algumas brincadeiras não nos diziam respeito.
As festas de adultos sempre regadas a tudo e nossos pais dizendo que não podíamos beber, fumar, e ficar até altas horas acordados.
Eles pareciam tão felizes.
E nós proibidos de tudo.
Não via a hora de crescer, rir e beber feito eles.
Nunca podíamos nada. Mas, sempre fazíamos tudo.

Cresci.
E uma das coisas que ainda recordo são os cheiros daquela casa e a prisão daquele bicho.
O homem sempre aprisiona o que ele não sabe explicar.
O bicho tinha os olhos mais tristes que eu já vira.
Devia ser estranho morar naquele tanque tão pequeno para um bicho tão grande e de som infantil.

Em pensar que comi daquela carne.

Ainda bem que não moro mais em tanques e continuo bicho.
Longe do cativeiro.
Bicho solto.

T.S.

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