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O uso indevido e inapropriado da coisa alheia.



foto Lelel


O que nos pertence de fato?
Aquilo que nos fora ofertado pela vida ou o que nasce conosco?


Furtar-se em renunciar a uma vontade soberana de si  mediante construções de vontades nascidas diariamente, por motivos torpes ou entregas em uma ou mais situações é recorrente. Por vezes, nos retiram do trilho ou nos empurram para frente e estas escolhas nos agigantam em  diferentes direções.

E como são urgentes e melindrosos os que esperam com avidez por respostas.
A vida não pede calma no século XXI.
A vida não assinala alma em pleno milênio da tecnologia de ponta.
A vida não parou a sua voracidade para assim sucumbir em mortes e mortes e retomar em vidas e vidas.

Características adotadas nas pessoas e em suas vidas perduram, por vezes, resistindo as adversidades desta. 
Hoje a necessidade de ter tudo para ontem, devidamente perfeito, tanto que, em determinadas e desmedidas situações, roubam o nosso agora e esquecem de amadurecer e crescer nas relações.
Incrível como este fato na sociedade atual tornou-se coisa qualquer, comum.

Passamos de amigos, para produtos. 
Passamos de amores, para relações que ficam ao longo do caminho.
Passamos de pessoas que sonham, para esquisitos.

Há um "zumzum" por aí, e até em relatos históricos, que as pessoas do Norte do Brasil tem o retrato da generosidade estampados em si.

Eu diria que é “uso inapropriado da coisa alheia”.
Sim.
Por que não?

Cada uma destas identidades aqui implantadas, plantadas, nascidas e vividas, antes mesmo de serem o que são e quem são, perduram devido uma sofrida e usurpada sociedade que  habitava terras de nomes mil. Os:

Manaó.
Baré.
Bassé.
Kudaya...Tantos...

...milhares que dizimaram ao longo dos anos passados e ao longo dos principais rios do Amazonas, sobre a investidura da etiqueta, ordenamento social, cultura e adjetivar o indígena objeto.

Usaram seus sangues- como assinatura.
Suas forças- como chão para pisar.
Suores e lágrimas- para nos ofertar a singela palavra “generosidade”. 
Somente ela a nos denominar. 
Nós, povo do Norte, somos somente generosos?


Silêncio ignorantes!

Nem ao menos sequer permitem conhecer a sua história brasileira.
Do seu povo brasileiro do Norte, para em seguida emitirem opiniões, suposições, críticas e até defesas calorosas sobre o povo de cá! 

É com você mesmo, povo brasileiro, que falo.

Os gigantes aqui nascidos, os filhos por ela adotados e fortalecidos pelo cansaço, descaso e abuso de tantos, a cada dia mais nos impulsionam de fato a caminharmos por este solo repleto de lendas, crenças, memórias e hiatos.
E sempre a nos refazer e crer que um dia tudo a de ser e permanecer feito estas terras: abundante, generoso, produtivo, grandioso. Todos os adjetivos são relegados a insignificância mediante tamanha grandiosidade Amazonida.

No que nos transformaremos? 
Não sabemos.

Esse projeto mal gerido de Amazônia brasileira está falido e ao mesmo tempo com lacunas gigantescas. Oportunidades e viabilidades são atestadas a olhos nus para quem visita, conhece e mora neste local repleto de novos horizontes.

Tudo por aqui nos pertence de fato. Até essa nossa história mal contada nos pertence de fato.

Minha Manaus, nossa capital, estado, país, sofrem deste grande mal, o de denominá-la de qualquer forma e maneira. Isso não é novidade e nem crise da idade da minha Manô e do meu povo Do Norte.

Fiquei pensando, cá com meus botões: “- É ou não generosidade, ou algo mais que este povo Do Norte possui?”

Observando bem, sem tanto romantismo e/ou praticidade, concluo que a mudança instalada no comportamento das pessoas, diretamente, sofreram influências por esta avidez do ter, mas algumas ainda resistem em permanecer com valores para a vida afora.

Onde esconderam estes "valores"?
Por onde anda a cordialidade?
Onde estão os que nos cumprimentavam com gentileza e presteza?

Eu não vivo num mundo de faz de contas, já vivi isso!
Presenciei e carrego comigo a gentileza desde que sai do interior do Amazonas.

Dos males o melhor: ainda estou com esta sensação de satisfação ao encontrar pessoas, mesmo que a vida imprima velocidade, que nos empurrem para o abismo estas pessoas ratificam  que a essência não mudam ou alteram estes valores.

Os simples do Norte são o meu gotejar de esperança na Vida.

Hoje trabalho em projetos que fazem minha cabeça ocupar-se mais e mais com o fim e não somente com o meio. 
Hoje trabalho com quem de fato será o beneficiado das minhas ações.
Hoje trabalho para milhares de pessoas que por um instante apostaram em minha voz ou forma de estar a frente de programas televisivos e radiofônicos.
Hoje trabalho escrevendo e depois decodificando as vozes e olhares tão simples, generosos, de tão diferentes formas em mostrar e revelar a minha amada Amazônia.

Esta coisa alheia da qual me apropriei, esta coisa minha da qual nasci, esta forma de viver mato, floresta, rios e incontáveis experiências que continuamente me fazem refletir sobre o verdadeiro valor que as coisas tem de fato, perdura, resiste e me faz ir.

Como um simples ribeirinho em sua canoa a cortar centenas de quilômetros, diariamente, somente para pegar sua mandioca e seu peixe, produzir sua farinha, vender seus produtos em mercados municipais espalhados pelos 62 municípios em dimensões continentais, somente para levar o seu sustento abençoado do lar. GRATUIDADE.

Verdadeiros guardiões da floresta. 
Autênticos sabedores dos ruídos do mato. 
A floresta viva a se movimentar e a falar.
O tradutor dos pássaros, o decodificador da poesia do Amazoniar.
Alma Zonal que tudo o que faz é o Ama Zonas.

Aqui. Não somente é um estado natural em ser diferente.
Aqui. Não é um país singular.
Aqui. É o continente de continentes.

GENEROSOS?
IMPERIOSOS!

Do ponto de vista de quem olha de fora para dentro a resposta é sim.
Mas para quem vê de dentro para fora a generosidade passa longe.
E dá lugar, abre espaços para dimensões Universais de conceitos além da personificação generosa da GENEROSIDADE e do que a própria Liberdade um dia supôs.

Durante todo esse tempo de afastamento do vídeo e do rádio que me propus, hoje posiciono-me frente a vida, como mais uma contribuidora para as coisas e causas do meu ofício em prol de algo melhor e mais justo para os meus do meu Norte e de tantos que aqui decidem viver e dos que hão de vir.

Estou a inteira disposição de ser mato, ato e tato de fato do caboclo do Norte. 
Do meu eu nortista.

Perdoem-me por ser assim: RIO DO NORTE.

EU, não perdoo-me.

Sarcasticamente, ou com uma certa ironia, regozijo-me do meu lugar de nascimento.
Não mais importo-me com conceitos, pré e pós conceitos sobre como devemos agir com o nosso povo e para o nosso povo. Eu sou o indivíduo, sou o povo.

Somos generosos, esqueceram que assim afirmam?
Para mais adequadamente, estas características peculiares dos que aqui habitam, nos foi ofertada de uma forma tão singela que nasce, cresce e desaparece com a mesma memória que um dia existe e existiu.
O nosso DNA Caboclo desde que a Amazônia é Amazônia irá perdurar por milênios enquanto houverem pessoas comprometidas com as “ coisas e fatos “ de ser da Amazônia.

EU SOU " DO NORTE".

(T. de S.)

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