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Herança Genética

Diviso a distância, uma canoa a cruzar o rio. Solitária. Não sei a quem pertencia. Estava a deriva. O ano, 2111, eu uma criança de 11 anos. Esperei tanto por esse momento. Minha mãe alimentou diariamente o que eu poderia descobrir ao abrir aquela cápsula que estava em minhas mãos. Dentro da mesma, um envelope com uma carta. Segundo mamãe, a autora havia sido minha bisavó que um dia fora uma jornalista. Como será que teria sido essa mulher?

Olho em volta. Estou sozinha, sentada num pedregulho ao lado do que sobrou de um rio barrento. Tudo ao meu redor fora destruído. Nossa comunidade tentava reconstruir o que podia, mas era muito difícil. Áreas imensas descampadas, pobreza em volta. A escassez por água e alimentos assolava o mundo e consequentemente, nossa comunidade. O que antes fora uma imensa floresta, conta somente, com pequenas árvores que foram salvas em estufas por estudiosos e profissionais da área. Minha avó diz que nos tornamos reféns da ambição. Ainda não entendo o que significa essa palavra, ela afirma que é algo que desejamos sem ser nosso. Comparo algo entre a fome ou a sede.

Gostaria de ter conhecido minha bisavó. Mamãe dizia que os escritos dela eram uma forma de nos aproximar. Estava nervosa. Com as mãos sujas e trêmulas, abri.

Sai de dentro um perfume cítrico e abafado. A mistura do tempo é incrível. Decidi ler.

“Oi minha querida bisneta ou bisneto, nem sei qual é o seu nome. Sei somente que carregas a mistura daquilo que fui um dia,a minha continuação. Antes destas palavras nasceram outras, incontáveis. Forma tantas, inúmeras feito às possibilidades de você sorrir e brincar. Decidi contar estas. Boa viagem, meu sangue, te amo.



Autos Juninos, o meio.

Como cruzar Palavras nos meus caminhos com textos e explicações, sentimentos e percepções. 
Sigo montando incontáveis quebra-cabeças com honra e determinação.
Por vezes abraçar pela manhã minhas tentativas de enterrar com palavras o meu passado.
Noite passada eu tive um sonho: Vi o meu presente. 
Estava deitada em minha cama a observar meu corpo.
Cada detalhe, cada movimento. Que cena torpe.
Meu sopro quase morto de mim. Um semblante adormecido, contrito.
Um corpo cansado, diferente, sem vida, asfixiado pelo tempo. 
Acordei de sobre salto afogada em lembranças.
Sinto nesta manhã que poderei ser eu sem futuro. Poderei ter um dia de cada vez, sem reprises, somente com uma atriz e vários atores.
Ontem eu tive um sonho. 
Sonhei comigo deitada ao meu lado, abracei o meu passado e aprecie o meu presente.

Ví:

A Autoajuda que me dei de necessária tornar-se moda no modo de ganhar dinheiro dos desesperados por si.
O Autodidata que aprendeu sozinho transformar-se num artigo de prateleira. Mera auto-classe sem vapor.
As Autobiografias de histórias de alguém mudar-se para status de celebridades vis, não mais escritas por uma, mas duas ou três mãos com bolsos furados de tantos vinténs.
A Autodeterminação que até bem pouco tempo era um direito de um país decidir o próprio destino político, vender por barganhas de poder suas nações, e como bônus e prêmio seus cidadãos perdidos e sem direção, escravizados. 
A interferência externa é uma constante, silenciosa, por vezes desavergonhadamente gritante, belicosa e travestida de ilusão.
Os países revelarem-se o desenho da Autolotação compromissados com um propósito, uma direção: o de encurtar distâncias usando levianamente o nome globalização.
Resultados mórbidos danificam equações, alucinam sonhos que desconstroem com acordos bilaterais de meia dúzia de famintos por posições, projeções entre bajulações, contas em paraísos fiscais em um automatismo desnecessário. Retrato fiel da automatização. 
Definitivamente substituíram nós, formigas humanas, operários dos sonhos, por máquinas que lhes imitem os movimentos seculares.
Autoestima? Conta bancária! 
Na esquina? Nada!
Em casa? Adentra pela TV a “Autoescola da corrupção”.
O sonhador Autônomo que antes era governado por leis próprias, livre, trabalhador sagas, hoje é o empreendedor continuamente assaltado pela Pátria vendida e despatriada.
Eu quero pedir uma Autopsia. 
Vamos examinar esse cadáver. 
O “cadáver” o inventor, o Autor. 
Quero autuar também, os Legisladores infratores, sonegadores, opositores do meu progresso. 
Quero me autuar por cegueira.

Estou cansada desse Autorama. 
Dessa infame pista automobilística em miniatura. 
Não quero mais ser carrinho de brinquedo que disputa corridas em espaços limitados.
Dê-me de volta a minha Autoria, quero de volta a minha qualidade ou condição de autora.
Eu sim sou Autoridade, eu tenho o poder, domínio, prestígio, sobre o sonho que sonhei na noite passada.
Posso me abraçar de novo.
Autoritários de plantão, sem escrúpulos, déspotas, inúteis, deixem-me falar: Eu sou uma sonhadora que decidiu acordar para a minha nação. 
Estão nos autos.
Seja o da compadecida ou não paixão pela vida. 
Serei eu, mais uma acolhida por mim.

Ontem à noite tive um sonho. 
Sonhei que retornei à Terra.
Minha herança de mim.

T.S.

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