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AS CURVAS QUE O MEU RIO FEZ.


A história de todo nortista do interior da Amazônia é misturada em cada curva de rio, cada remada de canoa e caminhada no mato. Para todos nós desta região, a identificação do tempo, da natureza em geral, naturalmente, acontece no dia a dia. Levantar cedo com o cantar dos pássaros. Ou somos nós que cantamos para os pássaros despertarem? Pele curtida pelo sol escaldante.
Até hoje fico pensando que o homem do mato não se dá conta que é um desses seres encantados da Floresta. Fica ao nosso encargo a responsabilidade de manter absoluto segredo não revelar a ninguém tudo o que é e como é. Isso de uma forma natural e não imposta.
Eis um dos relatos entre tantos momentos meus e da minha Amazônia.
O ano, 1987, primeira vez que saí de Codajás sozinha com meus irmãos, sem a companhia dos nossos pais, para curtir férias em Manaus. O Barco de linha (forma que é chamada as embarcações das nossas estradas de águas) permanecia mais na “carreira” (local onde são feitos reparos dos barcos) do que sobre as águas. A estrutura, o casco do barco era de dar dó. Sem mencionar a potência do motor, uma tristeza. Geralmente a estrutura era de dois andares. Habitualmente um barco de linha, à época, que fazia escalas em Tefé, Coari, Codajás com destino à Manaus levava em torno de quatro a três dias para fazer o percurso. O Barco que fomos, chamava-se “Capitão Monteiro” um toldo e meio, em torno de 80 passageiros, sem escalas, saiu de Codajás. Tempo de viagem, era uma cartola de mágicos: nunca ninguém sabia ao certo quando, como e se chegaríamos!

As águas do Rio Solimões, como todo rio da Amazônia além da beleza, representam perigos para quem navega. Antes de continuar a história, demixe-e contar. Só para vocês terem idéia, próximo a cidade de Coari, havia um “rebojo”, fenômeno que ocorria devido à proximidade dos barrancos, ou do desnivelamento do leito do rio. Todos que iam para o município ficavam apreensivos, pois no momento em que as embarcações atravessavam este percurso se não tivesse experiência e calma do prático (quem fica no leme) era engolido em um rodamoinho gigantesco. Conseqüência, tragédias: naufrágio e mortes.Uma destas e tantas outras tristes histórias foi no ano de 1982. Um barco que veio de Tabatinga (Fronteira do Brasil com a Colômbia) com uma tripulação de mais ou menos 150 passageiros com mais de 12 dias de viagem entre escalas em municípios e beiradões, passou nesse trecho próximo à Cidade de Coarí. Naufragou e morreram mais de 80 pessoas. Os que se salvaram, por sorte em botijas de gás, guarda-roupas. Ainda tenho gravado na mente imagem de corpos boiando e descendo com a correnteza em frente a minha cidade, Codajás. A imagem que guardei,também, foi a de vários turistas que estavam na embarcação que naufragou, subindo as escadarias de minha cidadezinha, gritando e lamentando a desgraça. Por estas, quando sempre viajávamos, nossos familiares redobravam a atenção.

Eu nunca conseguia dormir a noite.
Ficar acordado representa espetáculos noturnos. O céu da Amazônia parece que engole nossos pensamentos. Quando a tripulação dorme, um frio de rachar os ossos surge juntamente com a madrugada. A velocidade dos barcos de mais ou menos 40 km/h, aumenta a sensação desesperadora do frio.

Voltemos as férias.
Todos naquela noite de Dezembro estavam dormindo, quando por volta das 23h subi no toldo da embarcação e fiquei deitada no assoalho do barco contemplando aquele céu. Sabe amor a primeira vista? Pois. Este é meu caso eterno com as coisas da Amazônia. Aquela visão, o céu, as estrelas, a mata, o rio, eu, meus pensamentos... Dormi e despertei com o odor característico quando estávamos próximos de chegar à Manaus. Um cheiro de fábrica de café, o cheiro do porto do São Raimundo, da Feira da Panair e do Mercado Grande. Movimentação intensa como de costume, detalhe, nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro quadriplicam: férias da curuminzada.
Logo nos primeiros raios da manhã estávamos em zona Manauara. Todos eufóricos para a “nossa diversão”( afinal de contas, sem nossos pais) por conta e responsabilidade em tudo o que fizéssemos. Depois de atracar, colocavam pranchas para que descêssemos do barco, muita calma nessa hora. Perigo total!
Mas sempre a figura do nosso querido amigo, o “carregador”, figura imprescindível nos portos da Amazônia levavam as nossas bagagens rumo aos táxis. O nosso carregador era o Pará. Famoso no porto do Mercado Municipal. Criou a família toda com o ofício. O contato dele com minha família surgiu desde quando o pai do meu Pai era vivo, ou seja, além de carregar os filhos do meu avô ele hoje carrega até minha sobrinha neta de quatro anos de idade. O Pará, senhor de extrema confiança e bom humor com seu famoso bafo de pinga, nos deixava seguros e confiantes de que nunca seríamos assaltados.
O Centro da cidade, principalmente a escadaria de Manaus zona portuária, possui um número de bebuns, ladrões, prostitutas e biscates em meio a tantas pessoas que desembarcam oriundas de lugares variados da nossa Amazônia.
Quando íamos em direção da casa de nossa Vó, já estávamos eufóricos. Só o fato de entrar naquela casa, com o cheiro característico do lugar que carregaremos para toda vida, uma mistura de ração de aves, sementes, e passarinhos. Voó adorava passarinhos.

Corríamos para a sala, onde sentávamos na varanda da casa na Avenida Major Gabriel, no segundo andar, para olhar os carros passarem. E os devaneios acompanhavam cada um dos detalhes das nossas vidas, tanto que ao retornarmos para nossa cidade todos corriam para perguntar como era a vida de adolescentes na capital.
Este breve momento que compartilho com todos os que lêem este blog somente é para aproximá-los de alguns detalhe bons ou não da nossa querida Amazônia, do meu pequenino e gigantesco mundo: meu País Amazônico.

Solo de momentos generosos, tantas histórias, tantos mistérios, tantas paixões e amores.
Acrescento uma de minhas poesias que reflete minha infância.


INFÂNCIA

(escrito datado em 25.07.07, Manaus-Am)

A minha casa era assim:
Dois andares, pátio, colunas e pastilhas amarelas
Quintal, pintos, porcos e gerimuns
Tudo fedia.
Mas tinha,também, alegria

Tinha Mucura,
Que corria à noite atrás das galinhas
E meu pai, ia à loucura!

Tinha meus irmãos, quanta gente.
Tantos sons.
Tantas canções!!!
Rádios, vinis, banda!
Meu pai teve até um cinema e boate também!

E a turma do 13?
13 casais amigos inseparáveis!
A turma do POP?!!!
Jovens e adolescentes que se intitulavam “Guerreiros pós Ditadura”.
Se misturando entre pais, adultos, crianças e as travessuras.
Quanta comida, política tamanha fartura.

Tinha também minha escola.
Lá, não tão bonita!
Com inúmeras brincadeiras
Era viva!
Corria sem medo e com segurança
Cantava os hinos Nacional, da Bandeira, Independência....Tão independente.
Essa era a “Minha Infância”

E nela também tinha,
Brincadeira de gente grande
Que machucam corpos pequenos,
Tão assustados, serenos, passivos e humilhados.

Com sonhos perdidos e a realizar, que ao deitar
Juntava as mãos em oração,
Querendo um dia um perdão,
De um Deus que não via,
Mas sabia que sempre A veria
E seria o Seu Juiz.
Ah!
Eles hão de ver!
Essa era a “Minha infância”

Às 05h da tarde, entre os esportes da quadra Methon Alencar
Suava e gritava em frente ao Solimões e se divertia.
Às 06h da noite, pura magia!
Sentada num telhado a chorar e a contemplar
Uma natureza passiva
Somente a tudo observar, a sentir o todo até onde os olhos podiam, com lágriams a enturvar!
Oh! Céus!!!
Tudo está perdido?
Será que somente eu sinto?
Eu na “Minha infância”?
Querem destruir estas crianças,
Natureza menina, cunhatã serena, curumim solar?

Espera a lua e as estrelas, sonhando um dia em sê-las e em seu mundo poder participar.E no palco quem sabe, ser uma estrela a brilhar
Ah!! Esta é a “Minha infância”, de menina de beira de Rio,
Preparada para brincar!!!

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O autor

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