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O autor


Um dia, eu estava sentada na calçada da minha casa em Codajás, e um amigo que estudava com meus irmãos mais velhos, aproximou-se e veio jogar conversa fora.
Sempre gostei de diálogos longos que mexessem com a minha cabeça e revirassem  meu cérebro em todas as direções.
Esse amigo era esse tipo de prosa.

No meio da conversa ele lança umas frases meio soltas e sem nexo, o tom quase gritando e exasperado. 
Quem passasse pela frente da minha casa, olhando de longe a conversa, teria a impressão que mais parecia um palanque para a vida dele ou um bate-boca qualquer.
Disse:

"Eu quero falar sobre a repetição da vida. Sobre a minha confissão, fantasia, imaginação... 
Um caso que não é autoral.
Eu apresento agora a distorção de histórias vividas ao meu lado, um plágio de dores, um exorcista de destinos.
Inúmeros personagens abandonados pelo meio do caminho. 
Uma perturbação repleta de ausência, negligência, e com isso, mais um outro caso não autoral.

Em cada olhar dirigido a mim, cada corpo que se apresentava, pareciam páginas reviradas e repletas de episódios de folhetins. 

Todos truncados e inacabados por ininterruptas fugas e terror das próprias vidas. 

Um palco em penumbra e bastidores de invenções. 

Correndo de tudo e de todos eles nunca esconderam nada.  Fugindo de todos expuseram-se ao perigo e flertaram com a loucura.

Histórias com coadjuvantes e sem ator principal, entregues a uma platéia de chacais sedenta por sangue novo.

Enredos que contam detalhes de uma perseguição sem fim e rumo a uma perfeição  que nunca existiu.

Tudo o que foi exigido trajou-se da imperfeição para poder lucrar as migalhas nos bastidores do caos.

Histórias que foram somando e se apresentando de uma forma inescrupulosa. Sem pedir para ser aceita revelou várias facetas de verdades ocultas que assombraram até os defundos do abandonado cemitério da cidade.

Expuseram a fragilidade, fracasso, agressão, perdas, silêncio e alucinação. Tudo o que estava arpisionado no espelho foi quebrado pelo próprio reflexo angustiado e aflito. Não sobrou nada, além de uma armadura oca e sem vida.

E naquele grande encontro com o vazio, na vastidão da imensidão do escuro, encontrou solo prometido. 

Tudo mais passou a ser preenchido por uma clareza e entendimentos nucan antes acessado.  O sol ardeu por dentro e se fez luz no firmamento do pensamento.

Limpou as palavras que sobraram na memória. Fez brotar uma avalanche de novos horizontes, possibilidades, e naturalmente, novas percepções e oportunidades. Um  refinamento à beleza da descoberta."


Após a explanação do meu amigo, o silêncio ficou feliz e a tarde mansa na beira do Solimões. Presenciamos o autor compor a sua nova obra. 

Uma produção com um novo conteúdo pacificador, repleta de abraços e agradecimento pela escuta.



Tatiana Sobreira

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